• Vitor Seravalli

XXI Maratona de SP 2015 – 17/05/2015


Eu estava pronto para mais uma maratona.

Me sentia preparado e minha animação tinha dois motivos principais. Um deles seria correr em pleno outono, sem aquele calor inadequado que eu havia enfrentado em provas anteriores, e o outro bem mais relevante: eu correria minha décima maratona de São Paulo, algo pessoalmente especial, digno mesmo de comemoração.

O céu amanhecera com nuvens, apesar disso não havia perspectiva de chuva durante a prova. Sei que sou exceção quanto às minhas preferências climáticas, mesmo fora das corridas, mas saber que poderia correr esses quarenta e dois quilômetros sem calor excessivo, foi o presságio de que meu tempo final poderia ser bem melhor que as anteriores.

Minha preparação até essa prova também trazia um retrospecto bem melhor que em outras oportunidades. Além da carga de treinos bastante interessante até aquele momento do ano, eu já havia corrido três meia-maratonas, ou seja, um conjunto de dados positivos fez com que eu tivesse uma performance bastante tranquila, segura e, quando encontrei Cecilia, minha companheira de sempre em vários finais de maratonas, ali no mesmo km 37, somente segui em frente e conclui o percurso em menos de 4hs e 50 minutos.

Se todas as maratonas que já corri ou mesmo as que ainda pretendo correr fossem assim, este livro teria bem mais páginas com um número bem maior de corridas longas.

Isso me leva a constatar que a conjunção entre uma boa preparação e ambientes adequados e propícios são fatores potenciais de sucesso para muitas situações que enfrentamos em nossas vidas. Por isso, precisamos estar sempre atentos para percebê-las.

Em minha carreira, vivi situações distintas. Em algumas delas, fui capaz de enxergar as oportunidades e, afinal, consegui alcançar o melhor resultado possível. Enfim, sucesso total!

Porém, em outras, como dizia um cético e sábio amigo: “perdi a chance”.

Eu poderia contar uma história de cada, ou seja, uma em que logrei esse tal sucesso e outra o insucesso inesperado.

Dessa vez, optarei somente pela segunda opção, pois sei que assim fortalecerei meu próprio aprendizado com uma experiência que seria improvável, mas ocorreu sem que eu pudesse evitar.

Com atraso de pelo menos dois anos desde o momento em que já havia avaliado participar de um famoso e conhecido programa de empreendedorismo, finalmente fiz minha inscrição.

Sabia que seria algo importante para mim àquela altura de meu projeto profissional, mas procrastinei, o tempo passou, e isso já havia me custado bastante.

Mas, enfim, lá estava eu, juntamente com outros 26 colegas que formavam um grupo totalmente heterogêneo.

Na medida em que todos se apresentavam, vi pessoas jovens, outras não tão jovens, pessoas com perfil muito interessante e outras buscando uma luz que pudesse guiá-las em seus caminhos rumo a rendimentos melhores e maiores.

Quando me apresentei, notei que a turma agiu com uma reverência exagerada, como se eu fosse uma forma personificada de sucesso profissional.

A cada momento, chegavam perto como se fossem pedir um autógrafo. Queriam saber o que eu fazia ali, se eu já era um exemplo de profissional bem-sucedido.

Felizmente, não agi com arrogância em nenhum momento, nem poderia, mas dentro de mim surgiu algo parecido com uma espécie de deslumbramento e acredito que caí numa ridícula armadilha.

Hoje, após tanto tempo, concluo que aquilo me colocou numa frequência destrutiva de acomodação, displicência involuntária e desconexão com o conteúdo do excelente programa que eu sequer havia começado a experimentar.

Com isso, perdi todas as oportunidades que estavam à minha frente para crescer durante o curso.

Por exemplo, se eu trouxesse todos os meus livros impressos e os oferecesse para venda, eu venderia no mínimo três exemplares para cada colega. Eles comprariam qualquer coisa que eu colocasse à venda. Podem acreditar.

Ou se eu fizesse uma arrecadação de fundos para uma iniciativa empreendedora qualquer, é bem possível que eu arrecadasse uma ótima quantia.

Ou ainda, se eu oferecesse um pacote de sessões de coaching individuais com pagamento antecipado, talvez fosse obrigado a alugar alguma sala no andar daquele prédio.

Enfim, tudo mostrava de modo escancarado que as condições para uma situação típica de êxito total estavam completamente à minha mercê.

Sim, é lógico que estou exagerando, até porque nada disso sequer chegou à minha singela percepção.

E nem me perguntem o motivo, pois eu não saberia responder.

O fato é que o tempo foi passando e, bem lentamente, fui notando que meus colegas já não me davam tanta atenção. E isso se seguiu durante os dias seguintes até uma surpreendente indiferença geral.

Eu poderia relatar os sinais dessa mudança, porém não creio que isso seja necessário. O que aconteceu é que todos perceberam que, no final das contas, eu não era tudo o que elas imaginaram a princípio.

O ponto crítico que formalizou meu fracasso naquela intervenção chegou no momento em que fazíamos um importante exercício de avaliação geral e eu, exageradamente confiante e displicente, não consegui alcançar a nota mínima necessária para aprovação.

Aliás, eu e mais alguns colegas que precisariam de uma avaliação especial extra que não nos reprovasse.

Não, isso seria uma vergonha.

Aliás, a melhor aluna da turma, que obteve a maior nota muitos dígitos acima da minha era uma jovem de 26 anos, recém-formada, mas muito inteligente.

No encerramento, confesso ter ficado decepcionado com minha performance e não poderia ser diferente, todavia aquela experiência me levou refletir sobre o que aconteceu e tudo foi muito valioso para o período posterior ao encerramento do curso.

Eu poderia listar várias lições que compuseram o relevante aprendizado daquela vivência, mas uma delas, muito importante, e que se conecta com a história da maratona mais fácil que iniciou esse capítulo, é a necessidade de alguns cuidados que devem ser tomados quando enfrentamos desafios em ambientes ou situações aparentemente favoráveis e, entre eles podemos mencionar: a concentração, a mentalização no objetivo, a atenção plena, uma certa frieza e, principalmente, a humildade.

Com isso, será sempre mais seguro seguir o percurso e cruzar a linha de chegada, sem que indesejáveis surpresas nos surpreendam.

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