• Vitor Seravalli

Mizuno Uphill Marathon – 01/08/2015


Quando vi os primeiros anúncios dessa prova, eram realmente provocativos.

A começar pela beleza ímpar do local, uma serra com paisagem deslumbrante, acompanhada de um desafio singular a ser vencido.

Enfim, tudo o que um maratonista busca como objetivos.

Em seguida, a disputa já se iniciava no processo de inscrição pela internet em data e horário pré-determinados. Somente os mais rápidos no teclado conseguiriam preencher as aproximadamente quinhentas vagas.

Entrei na briga e comecei bem, porque eu consegui me registrar sem grandes problemas.

Vale relembrar que para muitas pessoas, correr uma simples maratona já é algo completamente fora de propósito, coisa de maluco mesmo. Afinal, são quarenta e dois quilômetros e cento e noventa e cinco metros percorridos a pé de uma só vez.

Mas especificamente nessa prova, o percurso seria tão desafiador que os organizadores decidiram provocar os corredores inscritos dizendo que somente os vencedores seriam os verdadeiros “ninja runners”.

Eu estava um pouco assustado, mas já havia decidido me tornar um desses tais “ninjas”.

Minha preparação foi semelhante às corridas anteriores, mas confesso que ela deveria ter sido bem mais intensa, afinal um paredão de quase um quilômetro e meio de altura estaria à minha frente antes da chegada.

Enfim, chegou o grande dia.

O clima estava ameno e todos torciam para que não chovesse durante o percurso.

Às quatro horas e trinta minutos da tarde, partimos. Muita animação em todos os rostos, tanto dos atletas quanto dos amigos e familiares que torciam incrédulos por aquele bando de doidos varridos.

Logo, percebi que não seria possível acelerar muito, pois embora o grande aclive ainda estivesse bem distante, desde o começo já não estávamos correndo no plano. Ou seja, já subíamos pouco a pouco.

Algumas escolhas erradas já começavam a me incomodar. Com medo de um eventual frio, optei em correr com uma jaqueta plástica do tipo “corta-vento”. Como a temperatura não caiu, o agasalho teve que ser retirado e tornou-se um peso morto em minha cintura. Pensei até em descartá-lo, mas se tratava de uma roupa cara e de qualidade. Assim, segui adiante.

Um pouco mais à frente, a noite foi ganhando espaço e, juntamente com ela, veio a escuridão. Eu nunca havia participado de um evento em que uma simples lanterna, generosamente emprestada, assumisse uma função tão importante.

Outro detalhe relevante foi perceber que durante boa parte do tempo, eu corria completamente só.

Tudo continuava sob controle e meu plano era manter o ritmo e não gastar qualquer energia além do essencial, pois ela seria fundamental quando a subida final chegasse.

A meta era completar o percurso, mas além disso havia um limite máximo de tempo. Eu deveria cruzar a linha de chegada antes do tempo máximo de seis horas. Para atletas adequadamente preparados, esse limite seria uma brincadeira. Mas àquela altura, eu sabia que precisaria de muita determinação, porque uma subida íngreme se apresentava insuperável em frente ao meu incrédulo olhar.

Num último posto de abastecimento, eu tomei a decisão de investir alguns minutos a mais e tomar bastante água, comer frutas e, enfim, encher meu tanque de energia, pois dali para frente, eu enfrentaria a batalha final.

Mas, mesmo assim, as passadas tornaram-se mais lentas e um trote confiante se transformou numa caminhada, muitas vezes, ofegante.

O tempo seguia acelerado e, quando consegui escutar algumas vozes, elas eram genuínas ameaças.

O tempo limite se aproximava e o narrador avisava que quando se esgotasse, nenhum dos corredores retardatários receberia a premiação reservada somente aos tais “ninja runners”.

Fui em frente, mas já não seria possível chegar a tempo.

Cruzei a linha final.

Eu venci por ter chegado, mas perdi por ter ultrapassado o tempo máximo. Meu percurso foi completado em aproximadamente seis horas e cinco minutos.

Vi as expressões frustradas das pessoas queridas que me esperavam, mas afinal, eu estava bem. Chegar inteiro naquelas condições tão adversas já se configurava uma grande vitória, mesmo sem a merecida medalha que não me foi entregue pelo exagerado capricho de um regulamento rigoroso demais.

Enquanto voltava para o hotel, uma reflexão imediata sobre minha performance mostrou-me alguns pontos positivos e, também, diversos aprendizados vindos daquela rica experiência. Aqui entre nós, a maioria deles já bem conhecidos por mim.

Os pontos positivos foram: o prazer pelo desafio, a determinação, a persistência, a resistência e o autocontrole.

Quanto aos aprendizados principais, o primeiro deles é bem básico: Se o projeto é um grande desafio, a qualidade de seu planejamento deve ser proporcional.

Entenderam ou querem que eu desenhe?

Em seguida, os ingredientes para o sucesso devem incluir disciplina, monitoramento constante dos indicadores, avaliação mais precisa do ambiente, escolha e priorização dos recursos necessários. Em relação a esse último, estou certo de que o peso de minha jaqueta desnecessária impactou em meu tempo total.

Acredito também que tenha subestimado a necessidade de algumas simulações e treinamentos prévios da situação que enfrentei ao encontrar a tal subida.

Além disso, a necessidade de uma maior prevenção de desperdícios se evidenciou nos minutos preciosos que perdi em meu último reabastecimento. Não sei precisar o quanto ele me ajudou, mas os cinco minutos que deixei ali, já seriam suficientes para que eu chegasse antes do limite de tempo.

Finalmente, pensei no reconhecimento. Nos desafios oferecidos pela vida real, os líderes na maior parte do tempo estão sós. E muitas vezes, mesmo após suas conquistas, não são reconhecidos adequadamente e podem não receber a sua medalha. Nem por isso, eles devem desistir, pois são movidos por algo muito maior. Algo que somente eles conseguem ver no horizonte.

Por falar nisso, ainda no caminho de volta ao hotel, eu matutava sobre qual seria minha próxima maratona.

Acho que não tenho mais conserto mesmo. Ainda bem!

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