• Vitor Seravalli

Maratona do Rio de Janeiro 2014

Atualizado: 22 de mar.


Correr na cidade maravilhosa já não seria uma novidade para mim.

Foi no Rio de Janeiro que corri, bem no início tardio de minha carreira de corredor de rua, a primeira meia-maratona.

Em fins de agosto de 2002, viajei num sábado, peguei meu kit, corri no dia seguinte os 21 Kms e tomei o voo de volta mesmo sem almoçar. Uma aventura de um típico corredor principiante maluco.

Dessa vez, eu teria a oportunidade de fazer tudo com mais calma. Não estava sozinho e poderia desfrutar um pouco mais daquela paisagem deslumbrante.

Pensava em reviver aquela sensação de correr olhando o mar e o céu azul com todas aquelas belas praias.

É, mas o clima não dava sinais de que o sol sequer apareceria durante a prova.

De qualquer modo, isso não importava, pois estar no Rio de Janeiro já significaria um sonho real, independente das condições atmosféricas.

Ao me levantar pela manhã bem cedo, eu sabia que teria que me deslocar desde o hotel, onde eu estava hospedado ali no Leme, até o local da largada a 37 kms de distância no Recreio dos Bandeirantes.

Porém, enquanto em tentava pegar um taxi, passou um atleta que já estava com seu carona e se ofereceu para me levar até a Praça Tim Maia, o ponto de partida .

Meu incidental companheiro era animado, falador e me lembro que contava com orgulho sobre os detalhes da sua façanha de ter vencido o desafio do Dunga em Disneyworld ainda naquele ano. Para quem não conhece, esse evento se compõe de 4 corridas, uma por dia, de 5 km, 10 km, meia-maratona e finalmente a maratona, de quinta até o domingo no início do mês de janeiro. Em homenagem a si mesmo, ele até fez uma tatuagem do famoso anão de Branca de Neve numa de suas panturrilhas.

O céu estava completamente nublado e já havia chovido um pouco antes de largarmos.

Não demorou muito e uma chuva torrencial caiu em nossas cabeças, mas segui sem preguiça rumo ao meu objetivo.

Vale dizer que minha performance, como já mencionado em outras provas, sempre foi melhor sem o sol escaldante, mas com o tênis cheio de água, qualquer desempenho também não poderia ser assim tão bom.

Depois de passar por alguns trechos bem conhecidos, cheguei à praia de Copacabana e, mesmo com chuva, já era possível ver muita gente nas calçadas e ninguém parecia saber que estava chovendo por ali.

Quando faltavam 5 km, minha companheira de viagem apareceu para me acompanhar até o final e me incentivou bastante pois a chuva fina de até então ficou novamente intensa e forte.

Nada de sol, nada de vista deslumbrante, mas concluir a prova em menos de 5 horas naquelas condições foi uma proeza.

Um pouco mais tarde, enquanto almoçávamos já banhados e secos num restaurante típico carioca, me lembrei de algumas situações similares à que vivi naquela manhã, ou seja, situações em que me deparei com diferentes cenários de expectativas prévias em contraste com situações reais posteriores completamente inesperadas e distintas.

Talvez uma das mais marcantes para mim ocorreu quando me preparei ao extremo para enfrentar um interlocutor feroz e perigoso, mas me surpreendi ao encontrá-lo dócil e inofensivo.

Como nunca acreditei em “almoço grátis”, fiquei na defensiva, desconfiado, agi com uma cautela certamente exagerada e, somente depois, percebi que havia errado redondamente na construção de minhas expectativas.

Embora o meu erro tenha me custado preocupação e estresse desnecessários, afinal foi melhor assim.

Pior ocorreu em outra situação, em que subestimamos os problemas que poderiam ocorrer durante um processo de fabricação de um produto em meus tempos na indústria e, depois, constatamos que um equipamento importante e muito caro teve que ficar paralisado por meses por causa dos impactos que uma reação química inicialmente inofensiva, se descontrolou e quase destruiu a instalação. Seria uma catástrofe, mas felizmente conseguimos evitar o pior.

Enfim, a essência dessa comparação aparentemente desconectada está nos cuidados que sempre devemos ter quando decidimos criar expectativas, quaisquer que sejam.

Em casos mais sérios podem levar a erros graves com impactos irreversíveis pela falta de um bom planejamento ou mesmo pela má avaliação das situações antes delas ocorrerem.

E, mesmo em situações pessoais aparentemente mais simples, embora individualmente relevantes, não exagerar no entusiasmo, pode evitar frustrações desnecessárias.

Nessa maratona do Rio de Janeiro, mesmo debaixo d’agua ninguém conseguiria identificar em mim qualquer tipo de decepção.

Pelo contrário, somente houve espaço para uma singela, mas espontânea comemoração pessoal.

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