• Vitor Seravalli

XX Maratona de SP 2014 – 19/10/2014


Sempre preferi correr essa maratona no primeiro semestre e o motivo é simples, o clima. A princípio, a prova desse ano seria realizada nessa época, mas por motivos específicos acabou sendo transferida para o mês de outubro.

Assim, numa manhã bastante quente, parti para minha 20ª maratona tomando todos os cuidados para não “quebrar” antes do final.

Considerando meu histórico, eu estava até razoavelmente preparado, mas uma mudança no percurso que levou os corredores ao enfrentamento de um longo trecho de ida e volta por uma das avenidas marginais da cidade sob um sol escaldante levou-me à sensação desagradável de estar chegando ao meu limite físico. Além da temperatura extremamente alta, a falta de fornecimento de água suficiente aos corredores fazia com que as expressões faciais de todos evidenciassem um desgaste incomum.

Foi muito difícil, pensei até mesmo em desistir, mas apesar de tudo, encontrei forças, principalmente pelo suporte fundamental de minha companheira de todas as horas a partir do Km 37, e então consegui completar os 42,195 quilômetros em aproximadamente cinco horas e trinta e três minutos. Ufa!

Se eu tivesse noção do impacto que essa mudança no percurso me traria, eu teria pensado um pouco mais em meu planejamento. Sei lá! Será mesmo?

Pois é, situações semelhantes a essa acontecem também em outras áreas de nossa vida. Não avaliamos adequadamente a situação que vamos enfrentar e pagamos o preço.

Um bom exemplo, já nos tempos posteriores à minha vida executiva, aconteceu quando recebemos um novo trabalho de consultoria que se resumia na avaliação de mais de uma centena de unidades institucionais do setor cooperativo por um sistema bastante detalhado e complexo que fora desenvolvido ano após ano pela própria organização.

Já conhecíamos bem o sistema de avaliações anteriores e sabíamos de sua dimensão, mas a demanda naquele ano específico sofrera um aumento substancial. No final das contas, não havia motivos para reclamarmos porque a remuneração seria também proporcionalmente bem melhor.

Nos preparamos, juntamos toda nossa experiência anterior e, da melhor forma possível, demos a largada.

Pois é, mas não foi tão fácil quanto imaginávamos.

Além do aumento substancial no número de avaliações, haviam sido incluídos mais detalhes, mais questões a serem avaliadas e não demoramos para perceber que em nosso ritmo normal, não conseguiríamos entregar os resultados no prazo esperado.

Bem, até poderíamos conseguir, mas para isso teríamos que incluir algumas simplificações que certamente reduziriam a qualidade de nossa entrega.

Sabíamos que nossa forma de avaliar estava acima do que seria um padrão médio desse tipo de diagnóstico. E sabíamos também que não entregar seria muito pior do que entregar algo que já estivesse pelo menos bom.

O problema é que essa alternativa não fazia parte de nossa forma de trabalhar, aliás nunca tivemos um único trabalho que entregamos abaixo de nossa melhor possibilidade.

Assim, fizemos uma análise detalhada do cenário que se colocava à nossa frente, refizemos nosso planejamento. Buscamos suporte de um recurso que estava próximo, mas que em nenhuma situação do passado fora trazido para colaborar e num regime excepcional de muitas horas por dia, fizemos todas as avaliações.

Devo confessar que o desgaste físico e mental nos levou ao limite, mas afinal conseguimos alcançar nossa meta mais agressiva e fechamos o trabalho com um feedback de nosso cliente no melhor nível que poderíamos esperar.

Comemoramos de modo singelo, mas legítimo e até hoje nos lembramos da experiência que aquela situação não planejada nos proporcionou.

Devo admitir que as duas situações que integram essa história não são iguais, pois nesse trabalho, não tínhamos qualquer chance de prever que o volume e a carga de trabalho que iríamos enfrentar teria a dimensão que teve.

Ali era uma questão simples de buscar a mínima estruturação necessária, manter disciplina e ser perseverante para usar de modo maximizado toda a nossa capacidade em prol de um resultado necessário.

Por outro lado, embora a disciplina em todos os momentos também seja necessária da mesma forma, uma maratona necessita ser precedida de preparação adequada e de um planejamento muito mais sofisticado.

Esta não foi a maratona mais difícil que corri na vida, contudo incluí em minha preparação de provas futuras um estudo mais minucioso de percursos, pontos críticos e dificuldades potenciais para nunca mais ser surpreendido como fui dessa vez.

Nem preciso dizer que esse novo hábito foi integrado de modo mais consistente em praticamente todos os desafios que se ofereceram à minha vida posteriormente, para o meu próprio bem.

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