• Vitor Seravalli

XVI Maratona de SP 2010


Apesar de estar inscrito para mais essa maratona de São Paulo, dessa vez eu não estava nem minimamente preparado para corrê-la.

Não me lembro exatamente o motivo de ter desistido de me preparar, mas para não perder totalmente a inscrição já paga, resolvi correr pelo menos 10 Km do percurso. Essa prova tem, além do percurso completo já meu velho conhecido, duas outras opções, uma de 10 Km e outra de 25 km.

Assim, conversei com minha filha Cecilia e pedi a ela que me levasse ao local da largada e depois fosse me esperar no Ibirapuera, o local da chegada.

Como iria correr somente os 10 km, em uma hora aproximadamente eu já teria chegado.

Seria uma oportunidade para viver o clima da corrida e desfrutar da prova, mesmo que de forma parcial.

Assim, no horário determinado pela organização, larguei.

O local do início da corrida nos levava pela Ponte Estaiada Octávio Frias de Oliveira, uma obra arquitetônica lindíssima. Eu desfrutava da paisagem e seguia em frente todo animado.

Aliás, eu me animei um pouco demais, pois no momento em que deixei a Av. Nações Unidas para seguir na direção do Parque do Ibirapuera pela Av. Juscelino Kubitschek, olhei para a outra direção e vi os atletas da maratona que seguiam para a direção oposta rumo ao Jockey Clube de São Paulo.

Como já disse no início deste texto, eu não estava preparado para o percurso maior. Por outro lado, eu já conhecia bem demais os impactos de uma maratona em meu corpo e sabia como lidar com o desgaste e com os obstáculos de um desafio como esse.

Pois é. Quando me dei conta, já havia mudado meus planos e, sem que compreendesse a razão, decidi seguir o percurso da maratona.

Meu lado racional nem sabia como reagir, mas o fato é que uma certa empolgação tomou conta de mim.

Estava com meu celular e sabia da necessidade de avisar minha filha sobre aquela nova travessura.

Logo que atendeu, perguntou onde eu já estava, pois queria estimar o tempo até minha chegada até o Ibirapuera. Não resistindo a uma gargalhada espontânea, disse a ela que eu havia errado o caminho e tomado a direção contrária para o percurso da maratona, em vez do percurso dos dez quilômetros.

Após alguns segundos de silêncio, Cecilia percebeu que precisaria arranjar algo para fazer até que eu conseguisse vencer o percurso, ou seja, pelo menos mais algumas horas. Ela me conhecia bem e nem se surpreendeu tanto com o que eu havia feito, mas sua voz me pareceu incrédula.

Aliás, no final das contas, se eu contasse aqui que foi fácil vencer o percurso maior, estaria mentindo descaradamente.

A falta de preparo adequado foi desgastante e o percurso total demorou quase uma hora a mais do que eu precisaria em condições normais. No total, foram quase cinco horas e cinquenta minutos e, apesar de tudo, cheguei inteiro, mais uma vez tendo o já costumeiro e generoso suporte nos quilômetros finais.

Estava muito feliz, pois afinal consegui uma medalha muito valiosa, principalmente porque ela não estava prevista.

Na época, sem qualquer noção de minha irresponsabilidade, eu contava até mesmo com certo orgulho do que eu havia feito naquele domingo. Hoje, após tanto tempo, tenho consciência plena de que fiz tudo errado. Aliás, meus joelhos me cobram um preço bem alto pelo que atitudes como aquela lhes causaram.

O único ponto positivo foi o importante aprendizado daquela experiência inusitada.

E em outras situações, mesmo totalmente fora das corridas, passei a utilizá-lo para meu próprio bem.

Não que tenha abandonado de vez minha capacidade de improviso, pois sei que essa característica quase sempre me trouxe bons resultados, às vezes surpreendendo outras pessoas.

O que mudou foram os cuidados que passei a tomar com minhas escolhas de não mais exagerar na autoconfiança, que sempre me levava a decidir com impulsividade irresponsável e desnecessária na aceitação das empreitadas.

Confesso que isso nunca foi muito fácil para mim, mas a introdução de uma maior atenção nos detalhes de um melhor planejamento a partir de então, fizeram toda a diferença até mesmo nos dias de hoje.

O que fiz nessa maratona, nunca mais se repetiu, embora algumas sequelas daquele período tenham me impactado fisicamente, com consequências que não conseguirei esconder de mim mesmo, infelizmente de modo irreversível.

Enfim, preparação, planejamento, disciplina e bom senso são ingredientes importantes para qualquer maratonista. Mas eles valem certamente para muitas outras áreas de nossas vidas.

Lição aprendida, nunca mais esquecida.

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