• Vitor Seravalli

XIX Maratona de SP 2013


Menos de três meses após a maratona anterior, veio mais uma maratona de São Paulo.

Numa manhã ensolarada com a largada no Parque Ibirapuera, esse cenário seria certamente a situação ideal para um corredor normal, e mesmo que eu não seja um bom exemplo para esse perfil, confesso que a sensação de estar presente ali com milhares de outros corredores era realmente de um certo êxtase.

Para os que, assim como eu, gostam da cidade paulistana, viver tantas vezes essa experiência é mesmo um deleite.

Embora as corridas internacionais tenham algo incomparável pelo fato de proporcionar aos corredores estrangeiros uma vivência ímpar pela experiência em si, correr em São Paulo é sempre especial. E nem me importo por ser repetitivo.

Aliás, isso vale também para a prova mais conhecida da cidade e do país, a Corrida de São Silvestre, que muito além de uma corrida de rua com todo o seu significado, é uma grande festa no final de todos os anos.

Especificamente, nesta edição da prova, eu optei por uma estratégia bastante definida.

Sabia das minhas condições e possibilidades, então, desde o primeiro quilômetro defini claramente minha cadência, controlando todas as minhas passadas ao ritmo de músicas específicas que fluíam pelo meu fone de ouvido. Enfim, trecho a trecho percebi que estava realmente mantendo o ritmo que planejara.

Essa disciplina trouxe-me a tranquilidade necessária para seguir em frente, mesmo com aquele calor típico da primavera já prevalecendo e, no costumeiro Km 37, encontrei minha filha Fernanda que praticamente me conduziu até o final me distraindo e dando o suporte que eu eventualmente precisasse.

Foram 5hs e 20 minutos. Cheguei sem sustos e sem grandes desgastes.

É certo que em todas as maratonas, quando chego ao Km 39 sempre me pergunto o que estou fazendo ali, cansado e desgastado pelo longo percurso, mas como sempre, ao cruzar a linha de chegada, a pergunta muda radicalmente, ou seja, a nova dúvida é: quanto tempo ainda falta para minha próxima maratona?

Todos dizem que é mesmo difícil compreender os corredores, assim o negócio é mesmo relaxar e comemorar mais um desafio vencido.

Os fatores de sucesso desta vez foram o conhecimento pleno de meu comportamento nesse percurso, a definição de um plano de corrida bastante preciso, a disciplina constante durante a prova e a consciência de que, sem eventuais imprevistos, eu chegaria inteiro à linha de chegada. E assim foi.

Viver esse cenário em outras áreas da nossa vida, com certeza, é sempre possível, embora certos imprevistos sejam bem mais frequentes do que em minha vida de corredor de rua.

Já vivi situações em que, analogamente, os fatores eram muito similares aos mencionados acima, porém, em alguns casos, de modo completamente imprevisto, certas intercorrências colocaram em risco o alcance do resultado esperado.

Um ótimo exemplo ocorreu certa vez quando fui convidado para fazer uma palestra em um evento muito importante de uma instituição, da qual o simples convite já havia sido o que costumamos chamar oportunidade honrosa.

Aceitar o convite não era o principal. Agradecer imensamente e entregar até mais do que o meu melhor talvez fosse altamente desejável. Isso sim e com certeza.

Como sempre, fiz minha lição de casa, preparei o melhor material possível. Da mesma forma, não me esqueci do costumeiro aquecimento com um pleno ensaio prévio.

Pronto, agora seria somente uma questão logística, então entrei em meu carro e, com tempo de folga, segui diretamente ao local da palestra.

Aprendi com um antigo líder e mentor que um bom processo de aquecimento para uma palestra inclui a mentalização dos objetivos da intervenção e uma certa estruturação mental do conteúdo, se possível, em seus tópicos principais.

Devo dizer que sempre usei esse processo com bons resultados e a disciplina constante durante todos os momentos prévios, sem espaço para qualquer displicência, se manteve como seu mais relevante fator de sucesso.

Mas, então vieram os indesejáveis imprevistos.

Como os anfitriões possuíam equipamentos ótimos, me orientaram a levar somente o material num pen drive, porém logo cheguei à conclusão de que esta não havia sido a melhor alternativa.

O arquivo não abriu.

Me arrependi de não ter levado meu próprio computador, mas ainda havia uma chance de resolver o problema, pois preventivamente eu havia enviado o material por e-mail.

Pois é. Dessa vez o novo problema foi que a pessoa que recebeu a mensagem teve um contratempo e não estava no local.

Naquela época, ainda não havia a tal nuvem para armazenagem de arquivos, etc. e as únicas nuvens que apareceram eram bem escuras e estavam estacionadas ali sobre minha cabeça.

Enfim, não houve outro jeito, me concentrei, cumprimentei o público presente e nem me justifiquei, pois somente me traria desnecessária insegurança.

Em tempo, este foi mais um ensinamento valioso daquele mesmo mentor: sempre que algo der errado em intervenções em público, não invista tempo em justificativas prévias, pois elas não servem para nada. Ou melhor, servem sim, para duas consequências não positivas. A primeira é que o público tenderá a pensar que a falha foi sua e não de qualquer outra responsabilidade. A segunda, você poderá ficar inseguro.

Anotaram aí?

Mas, seguindo em frente, quebrei o gelo com o cumprimento mais criativo e simpático que me veio à mente e, sem delongas, fiz a apresentação como se eu pudesse ver cada slide com o maior detalhamento que foi possível à minha frente.

Não, eu não era tão infalível assim. É óbvio que algumas falhas ocorreram, mas mantive a concentração e segui até o final sem dar chance ao meu senso crítico tão implacável.

Acredito que dei conta do recado, apesar das dificuldades. Penso até que uma parte do público achou minha performance boa.

Mas também, não fiquei pensando muito nisso. Terminei, agradeci e tchau!

Aliás, nunca gostei de assistir minhas performances anteriores que foram gravadas, tampouco me acostumei a abusar da autocrítica em situações deste tipo.

Como não havia sido algo que ocorreria em situação normal, se consegui sobreviver, valeu!

Mas aqui entre nós, se não fosse o planejamento, a preparação, a disciplina e o ritual que até hoje utilizo quando tenho compromissos deste tipo, sinceramente, eu não teria escolhido este exemplo para contar aqui.

Até porque essas intercorrências fazem parte de nossas vidas e estar preparado para elas é mais uma questão de atitude do que qualquer outra coisa.

Pensando em tudo isso, concluo que correr para mim é algo bem diferente. Sem estresse ou qualquer tipo de pressão, se tudo der errado, paro e volto para casa, na boa!

De qualquer modo, nunca tive que interromper uma maratona. Pelo menos, até agora, e aqui com meus botões, acredito saber muito bem os motivos.

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