• Vitor Seravalli

XV Maratona de São Paulo


Correr duas maratonas seguidas, num intervalo menor que dois meses, definitivamente não é algo recomendável.

Confesso ter me surpreendido quando vi em meus registros que tão pouco tempo depois de correr os 42 Km no Chile eu já estava de novo pelas ruas de São Paulo correndo minha décima maratona.

Nessa época, eu mantinha o planejamento de correr duas maratonas por ano, mas sempre buscava correr uma em cada semestre. O fato é que correr em São Paulo sempre foi um prazer para mim. Não importa se uma maratona, ou meia maratona, ou uma São Silvestre ou mesmo uma corridinha de 10 Km, a cidade de São Paulo está realmente em meu coração.

O dia estava seco, não muito quente, ou seja, ideal para que meu objetivo fosse cumprido.

Quando a maratona acontecia longe de casa durante viagens, eu sempre precisava vencer o percurso sozinho, mas em São Paulo eu tinha uma ajuda providencial ali perto do Km 37, Aliás, só de imaginar que alguém estaria me esperando com gel, banana, Gatorade e muito incentivo, eu certamente me sentia mais forte. E foi assim que antes de entrar na Av. Juscelino Kubitchek, vislumbrei minha filha e companheira Cecilia me esperando toda animada.

Bom, foi bem mais fácil. Aliás, quem me visse correndo nos últimos 3 Km, nem imaginaria o quão cansado eu realmente estava.

No fim das contas, o estado de espírito e a motivação fazem grandes coisa conosco. E isso não acontece somente durante as corridas.

Durante a vida profissional e mesmo pessoal, tive muitas oportunidades para perceber isso em minha atitude, ou seja, mesmo nos momentos mais difíceis, nos quais eu enfrentava desafios aparentemente insuperáveis, vi as dificuldades e obstáculos sucumbirem graças a diversos motivos, mas o principal deles foi a forma como os encarei de frente.

Entre esses momentos, lembro-me de um em especial.

Eu estava cursando meu MBA e havia uma disciplina muito interessante relacionada às marcas. Um assunto típico de marketing e meu time de projeto era formado por três colegas tão comprometidos quanto inteligentes. Alguns tinham mais experiência no assunto e outros não ficavam para trás graças à forma dedicada como estudavam e traziam informações relevantes para que pudéssemos desenvolver um trabalho que pudesse nos dar uma boa avaliação ao seu final.

E o final seria uma apresentação para o professor e toda a turma do curso.

Embora o momento fosse importante para nós, não se tratava de algo assim tão distinto do que estávamos acostumados a fazer.

Mas, no momento em que iríamos iniciar nossa apresentação, o projetor da escola não funcionou. Não sabíamos o que acontecera, mas não poderíamos continuar sem o equipamento.

A primeira proposta de decisão sensata que surgiu foi o adiamento. Porém, nós éramos o último grupo a apresentar e não havia qualquer nova data disponível, pois o semestre já estava no seu final.

Eu mesmo teria uma viagem ao exterior dois dias depois e meus colegas também teriam outros compromissos. A única alternativa seria fazer a apresentação de modo precário, o que não estava à altura do trabalho diferenciado de preparação que havíamos feito.

Na verdade, o problema não era tão grande assim, pois se tratava somente de um curso. Porém, nós estávamos frustrados, pois nenhum de nós gostava de fazer as coisas que se conectavam com nosso desenvolvimento de modo que não estivesse ao que julgávamos ser nosso jeito de priorizar nossas metas.

Mas a situação não se mostrava com algum outro cenário possível.

Nos cinco minutos que nos deram para definir o que faríamos, tive uma ideia.

Como um outro grupo assumiu o risco de se apresentar sem projetor, ficamos para depois do intervalo após a primeira apresentação, ou seja, ganhamos aproximadamente uma hora.

Como eu morava perto da escola, tive a ideia maluca de ir a outras escolas próximas e tentar emprestar um projetor.

Os três colegas se mostraram incrédulos à primeira vista, pois não imaginaram que nos emprestariam um equipamento tão caro. Porém, após argumentar que eu poderia oferecer o pagamento de um valor como aluguel, eles não se opuseram, eu saí da classe e tentei um contato por telefone com diversas escolas, mas não obtive qualquer sucesso. O tempo foi passando e eu mesmo já trazia em minha face a expressão de certo desânimo.

Eu tinha um pouco mais de meia hora, para fazer com que um projetor chegasse até onde estávamos.

Subitamente, me lembrei de uma escola que ficava a cerca de um quilômetro de onde estávamos. Pensei comigo que talvez se eu fosse pessoalmente à escola, pudesse ser mais persuasivo em meu pedido.

Fui praticamente correndo até lá. Cheguei ofegante, me identifiquei e um pouco desconfiados, me conduziram até a Secretaria.

Não foi assim tão fácil, mas expliquei a situação e busquei alternativas que iam de um aluguel por duas horas, pagamento adiantado, deixando documentos pessoais como garantia, etc. Mas, no final das contas, nada disso foi necessário. O responsável da escola que me atendeu simplesmente me emprestou o projetor. Deixei o número de telefone celular com ele e voltei radiante com o equipamento em meus braços.

Quando cheguei, meus colegas não se contiveram de alegria e surpresa.

Acho que ganhei muitos pontos com eles por causa de minha atitude e confesso que eu mesmo fiquei muito feliz por ter acreditado que conseguiria resolver aquele problema.

Fizemos a apresentação e ela foi ótima, neste caso porque nossa preparação havia mesmo sido muito bem feita.

Saímos de lá radiantes, mas ninguém mais do que eu mesmo.

Tenho consciência de que, afinal, foi um evento bastante pequeno, nada tão especial assim, mas tenho certeza de que aquela atitude me serviu de referência para muitas outras situações bem mais complexas que vivi posteriormente, nas quais repeti o comportamento, simplesmente por tê-lo em meu repertório de vivências.

Em resumo, uma grande e valiosa lição que aprendi foi: “definitivamente, atitude é fundamental!”

Mais uma coisa: "desistir" é um verbo que devemos afastar de nossas metas, de nossos objetivos e, principalmente, de nossos sonhos.

Por falar nisso, quando será mesmo a próxima maratona?

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